O que a sua história de vida diz sobre você?

O que a sua história de vida diz sobre você?

“João amava Teresa que amava Raimundo

que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili

que não amava ninguém.

João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,

Raimundo morreu de desastre, Maria ficou pra tia,

Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes

que não tinha entrado na história”.

Carlos Drummond de Andrade

“Lili que não amava ninguém”, casou-se com alguém que não estava naquele contexto da época da história. Será que ela passou a amar J. Pinto Fernandes ou ainda não ama ninguém?

“Joaquim suicidou-se”, o que houve em sua história de vida que o levou a isso?

“Maria ficou pra tia”, apesar do amor que Raimundo sentia por ela. Será que ela ficou para titia por que sempre amou Joaquim? O que fez com que Maria não se casasse com ninguém?

“Raimundo morreu de desastre”, nem o amor de Teresa ou por Maria o impediram de deixar esse mundo. O que viveu ele do amor, em sua breve vida?

“Teresa para o convento” se foi. Será que ela foi para lá antes ou depois da morte de Raimundo – que ela amava? E o João, que a amava, será que foi para os Estados Unidos antes ou depois de Teresa ir para o convento?

O que fez com que um fosse morar em outro país? Qual a trajetória que levou outra parar em um convento? O que houve com o que veio a morrer de desastre? Quais as circunstâncias que contribuíram para aquela não se casar? Existiriam explicações para história daquele que se suicidou? Como pode, aquela que não amava ninguém, casar-se com alguém que ninguém da história conhecia?

Carlos Drummond de Andrade, em poucas linhas, nos presenteia com uma profunda reflexão: as trajetórias de vida, os desfechos do amor, as vidas cruzadas de umas poucas personagens. Ele só mencionou o amor, mas podemos estender a reflexão para as outras áreas da vida, por exemplo, a área profissional…

Luzia que amava esportes na adolescência e era a melhor do time, hoje cozinha em um restaurante e vende toalhas bordadas para as amigas; Adolfo, vítima de Bullying pelos colegas, usou isso em seu favor e hoje é um profissional de sucesso na área de Coaching; Salete, a menina triste, continua triste, já se trata da depressão há anos; Francisco, que quando criança vivia agredindo os colegas e era violento, hoje é um simpático vendedor e um pai muito amoroso para com seus dois filhos e esposa; Rita, a menina extremamente tímida e magricela, hoje é modelo e desfila para grifes famosas; Ronaldo, que começou a fumar maconha aos 15 anos, foi usando outras drogas e morreu de overdose; Cecília, a menina estudiosa e meiga, seguiu carreira jurídica e já se separou cinco vezes, todos os seus ex-maridos dizem que ela é uma pessoa difícil de se relacionar; Mário, que desistiu de estudar na sétima série para trabalhar cortando grama na vizinhança, a fim de ajudar sua mãe muito pobre a sustentar seus irmãos, ficou rico, trabalhou de servente de pedreiro e hoje é dono de uma construtora poderosa; Catarina, que era tão linda e vaidosa, cheia de pretendentes que morriam de amores por ela, foi para algum lugar da muito pobre da África trabalhar como missionária voluntária, dedicando sua vida à caridade; Osvaldo, que era filho do dono da joalheria, é o responsável por continuar administrando o negócio da família que começou com o avô, além de manter exatamente a mesma joalheria, seguiu também praticamente a mesma vida do pai; Maria, que quase não tinha amigos, é professora na Irlanda, vive muito bem e feliz lá, não pretende voltar para o Brasil jamais, pois descobriu que não gostava daqui; Lauro, que quando criança era considerado gênio, não conseguiu terminar a faculdade, mudou de curso várias vezes, trabalhou em várias áreas por pouco tempo, se sente frustrado porque não consegue se encontrar na vida; Neusa, que tinha tanta dificuldade para aprender na escola e se alfabetizou mais tarde, está concluindo seu pós-doutorado em engenharia genética na Alemanha; Jerônimo, que tinha fama de “nerd”, abandonou o videogame e o trabalho na empresa de software, acordou num dia e decidiu colocar uma mochila nas costas e sair pelo mundo fazendo malabarismo nos semáforos, ninguém nunca mais soube do seu paradeiro; Margarete que dançava balé e tocava violino, trabalha como técnica de enfermagem no hospital e ali espera se aposentar; Rubem que sonhava em ser pianista, foi pastor, professor e, como de tudo o que ele planejou, nada deu certo, então, ele se tornou escritor – por acidente –  e, foi como escritor que Rubem ficou famoso, tão famoso que você talvez deve conhecê-lo, estou falando, é claro, de Rubem Alves.

Assim são muitas as biografias, há aqueles que seguiram um rumo complemente diferente do que podia ser imaginado na época, os que se mantiveram no caminho mais óbvio, há histórias de vida que mudam drasticamente, assim como também há as previsíveis, as banais, as aventureiras, as dramáticas, as comédias, os romances com final feliz… Se a sua história de vida até aqui virasse um filme, de que gênero seria?

A história de vida de cada pessoa, sempre é única e por isso especial. Em Filosofia Clínica, chamamos Historicidade, a história de vida contada pela própria pessoa, ela é o primeiro passo do trabalho filosófico-clínico para os que desejam descobrir “quem sou, de onde vim e para onde vou”.

Nem todos se ocupam de tais questionamentos, mas até mesmo para quem não busca descobrir quem é, de onde veio ou para onde vai, a Historicidade continuará sendo o fundamento da clínica filosófica para quaisquer que sejam os assuntos que venham a ser trabalhados, conforme a pertinência de cada caso.

 

DICA DE FILME:
17 Again (17 outra vez) – 2009, dirigido por Burr Steers.
Trailer:

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